Cortar o rabo do cachorro é proibido


Proibição do corte da cauda

Neste ano, o Conselho Federal de Medicina Veterinária decidiu proibir a caudectomia (corte do rabo do cachorro) para fins estéticos. Caso o veterinário insista no procedimento, pode ter seu diploma cassado, após a instauração de procedimento administrativo. As exceções são as cirurgias por causa de tumores, lesões ou ferimentos.

Adestramento de Cães traz a você informações sobre esse procedimento cirúrgico e os motivos que o levaram a ser proibido.

Qual a finalidade do rabo nos cachorros?

Assim como nós, os animais têm suas formas de comunicação. Essas, podem ser através da verbalização (latidos, ganidos, roncos), da atitude postural, do cheiro e do movimento da cauda.

Todos nós já vimos que o cachorro, quando feliz, abana seu rabo e o mantém bem alto. Quando triste ou com medo, ele o abaixa. É quase como se fosse uma bandeira que expusesse suas opiniões e seus sentimentos íntimos.

Essa "bandeira" é uma das formas mais diretas de comunicação entre eles. É tão eficaz, que mesmo à distância um cachorro consegue identificar o estado de espírito de outro, sabendo se a aproximação será bem recebida ou não.

Recentemente, a pesquisadora Emily Anthes publicou um estudo na revista PLOS, em que relata como a perda de uma parte da cauda pode afetar socialmente um cachorro.


Segundo testes feitos por biólogos da Universidade de Victoria, do Canadá, alguns cachorros desenvolvem o que eles chamaram de "anomalias comportamentais" após a prática cirúrgica.

O estudo utilizou-se de um cão robótico adaptado com uma cauda. Foram realizados 3 testes: um com a cauda curta; outro com ela em tamanho normal, mas imóvel; e um terceiro com a cauda em tamanho normal, mas se movendo.

O robô foi exposto a 492 cães em um parque. Os resultados foram conclusivos.

Na grande maioria das vezes (91,4%), os cachorros se aproximavam facilmente do robô quando este estava com a cauda longa e abanando. Para eles, tratava-se de um convite para brincarem e socializarem.

No entanto, esse quadro mudou quando o cachorro robô foi mantido com a cauda imóvel. Para os outros cães, isso significava que ele estava atento e desconfiado, e a aproximação era mais cautelosa.

Cachorros de menor porte evitavam aproximar-se e pareciam intimidados com a postura do mecanismo. Cachorros maiores ou de porte equivalente se mantinham à distância, atentos. E só se aproximavam depois de refletirem bastante, como se tentassem desvendar as intenções da máquina.

Quando a cauda foi diminuída, a situação permaneceu a mesma. Os cachorros evitavam a aproximação e apenas o faziam depois de muito refletirem se valia a pena. Os cães menores negavam-se a chegar perto e pareciam nervosos.

Pelo estudo, fica claro que um cachorro não consegue distinguir a diferença de uma cauda cortada e de uma cauda imóvel. E que os sinais que o animal transmite quando ela é aparada são conflitantes com seu estado de espírito. Um cachorrinho pode estar contente com a aproximação dos outros, mas não tem como sinalizar esse sentimento, pois sua forma de comunicação foi cortada.

Isso pode ocasionar algumas confusões entre os animais. Sem poder comunicar suas intenções, o cão é mal-interpretado, sendo isso uma possível causa de transtornos.

Sabe-se que entre os cachorros a hierarquia é importantíssima. Cães maiores se sentem desafiados se os outros mantém uma postura audaciosa.

E justamente essa postura é sinalizada através da imobilidade da cauda (ou ausência dela). A aproximação de um cão com o rabo diminuído é o mesmo que a aproximação dele com o rabo parado.

Nesse sentido, cães que tiveram suas caudas aparadas podem vivenciar momentos de estresse e ansiedade.

Para eles é muito estranha a postura dos outros cachorros, que parecem não compreender os sentimentos que eles estão sinalizando.

Essa ansiedade pode ser a causa do comportamento fóbico de alguns animais que simplesmente evitam se encontrar com seus iguais, aparentando medo. Em algumas vezes, a dificuldade de se expressar, e se fazerem compreendidos, os faz evitar a companhia de outros cães.

Quando os rabos começaram a ser cortados?

Segundo especialistas, o rabo dos cães de caça começaram a ser cortados para a própria proteção deles. Por ser uma área muito irrigada, quando eram mordidos corriam riscos de hemorragia. Isso em  meio a uma caçada, sem ter como dispensar cuidados médicos ao animal, era quase uma sentença de morte. Nesse mesmo sentido as orelhas dos bichos também eram aparadas, para oferecerem menos área às mordidas dos outros animais - e até mesmo outros cachorros.

Dependendo da raça, o tamanho da cauda poderia ser maior ou menor. O fox terrier, muito utilizado em caçadas à raposa na Inglaterra, tinha o comportamento de se enfiar na toca da caça para arrastá-la para fora. Sua cauda era, por esse motivo, reduzida ao tamanho da mão humana, para que o dono o pudesse retirar pelo rabo.

No entanto, com a prática das caçadas à raposa proibidas na Inglaterra, não há mais necessidade da redução do apêndice. E esse costuma ser removido apenas por motivos estéticos.

Países como Áustria, Bélgica, Croácia, Estônia, França, Grécia, Hungria, Islândia, Holanda, Noruega, Polônia, África do Sul, Suíça, entre outros, já haviam proibido a cirurgia.

Possíveis riscos à saúde do animal

Por outro lado, o Conselho Federal de Medicina Veterinária concluiu que a cauda, por ser a extensão da coluna vertebral do bichinho, estaria sendo submetida a uma clara mutilação ao ser cortada para fins puramente estéticos.

Envolver um animal sadio em uma cirurgia sem motivos, segundo o Conselho, é expô-lo ao risco sem uma justificativa plausível. Além do mais, além do perigo do procedimento em si, ainda o animal estaria exposto a outros, como o da anestesia e às infecções do pós-operatório.

Outro motivo importante se deve ao funcionamento mecânico desse apêndice. Sabe-se que a cauda do animal, além de tudo, é útil como forma de equilíbrio nos momentos em que ele corre e muda de direção. Assim como os braços nos seres humanos, o rabo dos cachorros cumpre importante papel nos momentos de movimentação, ajudando-o a completar o deslocamento.

Para se ter uma ideia da importância, basta tentar correr sem movimentar os braços. A dificuldade é óbvia e leva a uma diminuição da velocidade.

O que acontece é que o cachorro precisa aprender a conviver com essa limitação e compensar o movimento de forma a conseguir conclui-lo, aplicando maior esforço para completá-lo.

Desde março de 2008 já era proibido o corte das orelhas dos cachorros. Agora, está também proibido a remoção de parte da cauda para fins estéticos.

Abanando seus rabinhos, os animais agradecem.

Até breve!


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